Indígenas do Vale do Javari, onde Bruno e Dom morreram, sofrem com abandono, conflitos e ameaças no AM

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Após quase um ano dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, indígenas do Vale do Javari, continuam denunciando casos de abandono do poder público, conflitos e ameaças feitas por criminosos. No dia dos povos originários, o g1 faz um recorte da atual situação do local, a partir do relato de uma liderança que mora na região e que denuncia as recentes agressões que estão sendo feitas.

A liderança é do povo Kanamari, mas tem medo de se identificar com medo de represálias. Segundo ela, no domingo (16), homens armados com fuzis, e que falavam espanhol, invadiram uma aldeia da etnia e ameaçaram o cacique. Segundo ele, a briga começou após a Polícia Federal apreender madeiras extraídas ilegalmente do território indígena. Um boletim de ocorrência foi feito sobre o caso.

“Essas ameaças estão se tornando constantes. São pescadores, caçadores, madeireiros e até traficantes, que vem do lado do Peru, pegam aqui os parentes, fazem a cabeça deles, e os levam para trabalhar nesses negócios. E eles ameaçam, dizendo que se os parentes contarem algo do que viram por lá, eles vêm nas aldeias para matar todo mundo”.

Terra indígena Marubo, do Vale do Javari, no Amazonas. — Foto: Sebastião Salgado
Terra indígena Marubo, do Vale do Javari, no Amazonas. — Foto: Sebastião Salgado

O trabalho de vigilância da terra indígena, feito pelos próprios indígenas, também incomodam os criminosos, que dizem que o governo e as instituições de defesa dos povos originários, não querem ajudar o grupo e que eles são os únicos que podem ajudar as aldeias:

“Eles não concordam com a nossa vigilância, falam que a Funai não quer nos ajudar, que eles tem que explorar a área e que a gente tem que negociar com eles, trocar as coisas com eles”, afirmou.

As ameaças, segundo o líder, se intensificaram após a morte do indigenista Bruno Pereira e a situação está tão crítica que os indígenas começaram a se refugiar na floresta, durante a noite, para evitar serem capturados pelos criminosos.

“Estamos com muito medo. Nossos parentes não dormem mais nas casas. Eles estão fugindo para o meio do mato, durante a noite. Só voltam de manhã, pois tem medo de voltarem e desses homens atirarem neles, nas crianças”, contou.

Índios fotografados pela Funai durante expedição ao Vale do Javari. — Foto: Bernardo Silva/Funai
Índios fotografados pela Funai durante expedição ao Vale do Javari. — Foto: Bernardo Silva/Funai

O líder teme pela sua vida e pediu que o Governo Federal possa ouvir os “parentes” sobre a situação que, segundo ele, está insustentável na maior terra indígena do país: “É preciso ouvir o que está acontecendo dentro do nosso território. Clamamos que as autoridades nos ouçam”, finalizou.

Na segunda-feira (17), a Associação dos Kanamari do Vale do Javari enviou um ofício à Funai relatando a situação. Na carta, os indígenas falam sobre as ameaças, ataques e clima de insegurança na região:

“Estamos cansados de informar ao estado brasileiro sobre as invasões em nosso território. A retirada da madeira e a pesca ilegal feita por criminosos, dentro das nossas aldeias, tem nos tornado refém do medo”, afirmaram.

Ainda no documento, os indígenas citam a falta de ações e vigilância no território por parte das autoridades brasileiras: “A morosidade do estado brasileiro tem nos causado grandes perdas e não estamos dispostos a perder mais nenhum dos nossos. Estamos com medo que uma nova tragédia aconteça em nossa região e, portanto, pedimos que esta solicitação seja atendida o mais breve possível”, finaliza a associação.

g1 solicitou do Ministério dos Povos Indígenas e da Funai um posicionamento sobre o caso, e aguarda retorno dos órgãos.

Ameaças se repetem

Em novembro do ano passado, os Kanamari já haviam denunciado que pescadores ilegais que atuam no Vale do Javari ameaçaram exterminar lideranças indígenas da região. Na época, um pescador chegou a apontar uma arma para o peito de uma indígena e disse que “as mortes no Vale do Javari não iam acabar até que as principais lideranças do local sejam assassinadas”. Os homens disseram ainda que a mulher estava na lista dos alvos dos criminosos.

“Vou tirar a máscara para você ver meu rosto e te avisar que por conta de atitudes assim que Bruno e Dom foram mortos pela nossa equipe e você será a próxima. Só não te matarei agora porque estamos na presença de muitas crianças”, disse um dos pescadores à mulher, segundo os indígenas.

Após ameaçar a liderança, os pescadores teriam cortado a fiação de uma das canoas dos indígenas. Os pescadores, então, saíram pelo rio empunhando armas e atirando em direção às embarcações. De acordo com a Associação dos Kanamari, os tiros perfuraram os tambores de gasolina que estavam em uma das embarcações.

Criança morre por negligência

Atalaia do Norte fica localizada no interior do Amazonas. — Foto: Divulgação/Comando Militar do Amazônia
Atalaia do Norte fica localizada no interior do Amazonas. — Foto: Divulgação/Comando Militar do Amazônia

Já no início de abril, o g1 denunciou que uma criança, também Kanamari, de apenas três anos, morreu com pneumonia, em Atalaia do Norte, município localizado dentro do Vale. Na época, lideranças da etnia disseram que a morte da criança aconteceu enquanto os pais esperavam benefícios sociais do Governo Federal na cidade.

“Eles saíram da Aldeia São Luís e vieram para Atalaia do Norte em busca de benefícios, e ficaram aguardando atendimento, dependendo da Funai, quando não dependendo do CRAS, do município. E sempre é assim, demora os atendimentos e como os indígenas que vem do interior não tem onde ficar, eles ficam nas canoas, todos agrupados no porto. Por serem leigos, muitos não sabem quem procurar”, explicou um cacique ouvido pelo g1.

Para as lideranças, a situação mostra o descaso dos órgãos para com os povos originários. Segundo eles, o grupo se reuniu com a ministra dos povos originários, Sônia Guajajara, durante sua passagem pelo Amazonas em fevereiro, e indicou nomes do próprio povo para presidir órgãos da saúde indígena dentro do território, mas que até o momento não foram atendidos.

A Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Amazonas (OAB-AM) também chegou a se pronunciar sobre o caso e disse que a morte da criança Kanamari foi fruto de uma série de omissões, que se reproduzem e vitimam, com teor genocida, as populações indígenas.

Falta de direitos básicos

Já na semana passada, caciques dos povos Matis, Kanamari e Mayoruna, de aldeias do Vale do Javari, vieram até Manaus reivindicar a presença de professores qualificados na região. Eles também pediram estrutura para o desenvolvimento de atividades educacionais na região.

“Há mais de 20 anos nossa educação está sendo fragilizada, não aguentam mais ver os filhos saindo das aldeias buscando alternativa na cidade, no qual está tendo muita prostituição, drogas, alcoolismo. Isso está danificando todas as aldeias. A reivindicação é que o estado cumpra sua função de levar educação de qualidade diferenciada para o nosso povo”, disse Igson Kanamari.

À Rede Amazônica, o representante do povo Kanamari também falou que os estudantes da etnia estudam em uma estrutura precária, sentados no chão: “Em algumas aldeias os professores aproveitam casas abandonadas para dar aula, correndo o risco de desabar em cima dos alunos. É uma coisa desumana”, afirmou.

Estado tenta resolver problemas, mas falha na solução do caso Bruno e Dom

Operação Tucandeira realizada pela PF no Vale do Javari.  — Foto: Divulgação PF
Operação Tucandeira realizada pela PF no Vale do Javari. — Foto: Divulgação PF

O Governo Federal tem feito operações no Vale do Javari para evitar a proliferação do garimpo ilegal, outro problema que assola os moradores da região. Em março, tanto o Exército, quanto a Polícia Federal conseguiram destruir dragas e balsas usadas na extração de ouro na região. Uma base fluvial da PF, inclusive, chegou a ser deslocada de Manaus para a terra indígena, para cumprir diligências no local.

Em fevereiro, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara e representantes dos Ministérios da Justiça e dos Direitos Humanos visitaram a terra indígena. O objetivo da visita foi fortalecer a atuação das forças de segurança para garantir a proteção dos direitos indígenas, socioambientais e também de servidores que atuam na fiscalização do território.

Já em março, foi a vez da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, visitar o local. Na região , ela afirmou que pautará, ainda no primeiro semestre deste ano, o processo que discute o fim do marco temporal da demarcação de terras indígenas.

Rosa Weber com indígenas no Vale do Javari, no Amazonas — Foto: Divulgação/CNJ
Rosa Weber com indígenas no Vale do Javari, no Amazonas — Foto: Divulgação/CNJ

Mas, ao mesmo tempo em que o Estado tenta se fazer presente para coibir uma onda de crimes na região, falha na resolução dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillipis.

Isso porque, após mais de dez meses do crime, o julgamento dos principais suspeitos de assassinarem a dupla – Amarildo da Costa de Oliveira, Oseney da Costa de Oliveira e Jefferson da Silva Lima -, segue em ritmo lento. Problemas de logística e falta de estrutura marcam um dos julgamentos mais importantes da atualidade e expõem a fragilidade do judiciário brasileiro diante do caso.

Bruno e Dom foram mortos no dia 5 de junho, no Vale do Javari.  — Foto: Getty Images via BBC
Bruno e Dom foram mortos no dia 5 de junho, no Vale do Javari. — Foto: Getty Images via BBC

Até o momento, a justiça ouviu 11 testemunhas, de defesa e acusação, e a previsão para começar a interrogar os réus é apenas para o início de maio. No entanto, um Habeas Corpus impetrado pela defesa dos três pode engessar ainda mais a elucidação do caso.

Enquanto isso, o Vale do Javari, segunda terra indígena do país, e que concentra o maior número de povos originários isolados do mundo, segue sendo uma terra de conflitos, na qual seus habitantes são condenados a viver cercados de medo, abandono e ameaças.

*g1

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