Insônia: por que o corpo está cansado, mas o sono não vem?

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O relato de Tiago Iorc sobre um período de intensa exaustão e dificuldade para dormir ajuda a iluminar uma situação que pode ser mais complexa do que simplesmente “passar uma noite em claro”. Em uma fase de forte exposição profissional, o cantor contou ter chegado a ficar um mês sem dormir e associou aquele momento ao excesso de trabalho, ao consumo de bebida, ao esgotamento e à perda do prazer de subir ao palco.

Embora experiências como essa possam ter diferentes causas e não permitam, por si só, estabelecer um diagnóstico, elas levantam uma questão importante: o que acontece quando a pessoa está fisicamente cansada, mas não consegue desacelerar o suficiente para adormecer ou acorda repetidamente e não consegue voltar a dormir?

A psiquiatra Jessica Martani explica que estresse intenso e alterações emocionais podem interferir diretamente nos mecanismos que ajudam o organismo a entrar em estado de repouso. O problema pode se tornar ainda mais difícil de interromper quando a falta de sono passa a alimentar o próprio estado de alerta.

“Existe uma diferença importante entre estar cansado e conseguir dormir. Quando o organismo permanece em um estado prolongado de alerta, a pessoa pode estar fisicamente exausta, mas mentalmente incapaz de desacelerar. Pensamentos acelerados, preocupação, estresse e alterações emocionais podem manter o cérebro em um nível de ativação incompatível com o sono. Quando isso se prolonga, a própria privação de sono passa a aumentar a irritabilidade, a dificuldade de concentração e a sensação de esgotamento”, detalha.

O que uma noite mal dormida provoca

O sono está envolvido em funções essenciais para o organismo, como consolidação da memória, atenção, regulação emocional e recuperação física. Por isso, seus efeitos não se resumem à sonolência no dia seguinte. Quando as noites ruins se acumulam, atividades que exigem concentração, tomada de decisões e controle das emoções também podem se tornar mais difíceis.

“Dormir não é simplesmente desligar o corpo. Durante o sono acontecem processos importantes de recuperação física e cerebral. A privação prolongada pode comprometer atenção, memória, tomada de decisões e regulação das emoções. A pessoa também pode ficar mais irritável, impulsiva e com menor capacidade de lidar com situações que normalmente conseguiria administrar”, acrescenta.

Uma noite de sono ruim, isoladamente, não significa que exista um transtorno. A preocupação aumenta quando a dificuldade se repete e começa a afetar o funcionamento durante o dia.

Por que o álcool pode piorar a situação

O consumo de álcool também merece atenção quando aparece associado à dificuldade para dormir. A bebida pode produzir uma sensação inicial de relaxamento e, em algumas pessoas, facilitar o adormecimento. Isso não significa, porém, que o descanso será de boa qualidade.

Conforme o álcool é metabolizado, o sono pode ficar mais fragmentado, com maior número de despertares. Transformar a bebida em uma estratégia habitual para conseguir adormecer ainda pode criar um ciclo difícil de romper.

“O álcool pode até produzir inicialmente uma sensação de relaxamento e facilitar o início do sono em algumas pessoas, mas isso não significa que ele proporcione um sono reparador. À medida que é metabolizado, pode fragmentar o sono e aumentar os despertares. Criar o hábito de beber para conseguir dormir é especialmente preocupante porque pode estabelecer um ciclo em que a pessoa passa a depender daquela estratégia e, ao mesmo tempo, prejudica a própria qualidade do sono”, observa.

Quando o cansaço vem acompanhado de perda de prazer

A falta de descanso não afeta apenas a disposição física. Em períodos prolongados de estresse e esgotamento, também pode haver mudanças na maneira como a pessoa se relaciona com atividades que antes eram fonte de satisfação.

No caso de Tiago, o relato sobre a perda do prazer de subir ao palco chama atenção justamente por aparecer em meio a um período marcado por exaustão e problemas com o sono. Essa combinação, por si só, não permite concluir que exista uma determinada condição de saúde mental, mas merece ser observada quando persiste e interfere na vida cotidiana.

“Perder o prazer por atividades que antes eram importantes pode acontecer em diferentes contextos e não permite, sozinho, estabelecer um diagnóstico. Mas quando essa perda de interesse persiste e vem acompanhada de alterações importantes no sono, energia, concentração, humor ou funcionamento social e profissional, é um sinal de que a saúde mental precisa ser avaliada. O importante é não normalizar o sofrimento apenas porque ele está relacionado a uma rotina profissional intensa”, destaca.

Quando a insônia deixa de ser ocasional

Ter uma noite ruim eventualmente faz parte da vida e não significa, necessariamente, que exista um problema de saúde. A situação é diferente quando a dificuldade para dormir se torna recorrente, persiste ao longo do tempo ou começa a comprometer as atividades durante o dia.

A insônia pode envolver dificuldade para adormecer, despertares frequentes ou acordar antes do horário desejado sem conseguir voltar a dormir. Também pode estar relacionada a diferentes fatores, incluindo estresse, alterações emocionais, hábitos, uso de substâncias e outras condições de saúde.

“Quando a pessoa passa a ter dificuldade frequente para dormir, acorda repetidamente, sente que não consegue descansar ou começa a depender de álcool ou medicamentos por conta própria para conseguir dormir, é importante procurar avaliação. A insônia pode ser um sintoma de diferentes condições e também pode se tornar um problema por si só. Quanto antes entendermos o que está mantendo esse ciclo, maiores são as possibilidades de interrompê-lo”, pontua.

O uso de medicamentos para dormir por conta própria também merece cuidado. A escolha do tratamento depende da causa do problema e deve ser feita individualmente, especialmente quando a alteração do sono vem acompanhada de sintomas emocionais ou de consumo frequente de álcool.

O sono como sinal de que algo não vai bem

O episódio relatado pelo cantor também permite olhar para uma questão mais ampla: rotinas de trabalho intensas podem dificultar a criação de limites entre atividade profissional, descanso e vida pessoal. Quando o corpo permanece em estado de alerta por tempo prolongado, dormir pode deixar de ser uma consequência natural do cansaço.

Para Jessica, observar mudanças persistentes no padrão de sono pode ser uma maneira de perceber que é hora de interromper o ciclo e investigar o que está por trás dele.

“O sono é um dos primeiros indicadores de que alguma coisa pode não estar bem. Quando alguém está constantemente cansado, mas não consegue dormir, é importante olhar para a rotina, para os níveis de estresse, para o consumo de álcool e outras substâncias e para a saúde emocional. Não devemos esperar que a pessoa chegue ao limite para considerar que aquele sofrimento merece atenção”, conclui.

Fonte: O Globo/Foto: Magnific

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