Maduro cogita negociar com os EUA, mas exige garantias

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Nos últimos dois meses, o chavismo, no poder há mais de 25 anos na Venezuela, vive um assédio militar inédito por parte dos EUA. Por trás da bandeira da luta contra o narcotráfico, conduzida pelo presidente Donald Trump, porém, está o objetivo de promover uma mudança de regime em um país estratégico, dono das maiores reservas de petróleo do mundo e aliado de Rússia, China, Irã e Turquia. Diferentemente de seu primeiro mandato, quando tentou derrubar Nicolás Maduro por meio de sanções e apoio ao governo paralelo de Juan Guaidó, Trump agora estaria disposto a autorizar ataques diretos contra instalações militares venezuelanas, segundo a imprensa americana — algo que o presidente negou na sexta-feira. Apesar do clima de tensão e da pouca perspectiva de diálogo, fontes próximas ao chavismo afirmam que Maduro não descarta uma negociação. Mas ele faria demandas ambiciosas, entre elas a participação em um eventual processo de transição democrática, a anistia para todos os que participaram de seus governos, garantia de sobrevivência política e preservação do controle de áreas do país.

Maduro, destaca uma das fontes, não quer ser um novo Bashar al-Assad (ditador que governou a Síria de 2000 a 2024, deposto por uma ofensiva jihadista). O venezuelano, segundo fontes consultadas em Caracas, não deseja viver em exílio de luxo em algum país como a Rússia — ou numa situação menos confortável em Cuba. Os dois países são aliados do chavismo, com forte participação na área militar e de inteligência. Ainda assim, as lideranças chavistas não estariam buscando apoio externo para escapar de uma eventual invasão americana. Nesse cenário, a ordem é resistir.

Nos primeiros meses de Trump no segundo mandato, houve negociações entre a Casa Branca e o Palácio de Miraflores. O encarregado de representar Trump foi Richard Grenell, enviado especial do governo americano. Nas negociações, falou-se apenas sobre deportação de imigrantes irregulares venezuelanos e novas concessões de petróleo. As conversas avançaram de forma positiva, prova disso é que todos os meses chegam aviões com venezuelanos deportados a Caracas, e Maduro renovou uma concessão à petroleira americana Chevron, em condições menos vantajosas para a Venezuela — que passou a receber o pagamento em petróleo, não mais em dólares.

Mas Grennell perdeu força e recebeu a ordem de suspender as negociações. Entrou em campo, então, o secretário de Estado, Marco Rubio, e a pressão militar se intensificou. Em palavras de uma fonte da oposição venezuelana alinhada com Rubio, agora o que se busca é “tirar os chavistas a carajazos, ou seja, na marra”.

Temas cruciais

 

Dentro do chavismo, são impostas condições sem as quais é impensável uma saída do poder. Garantir a sobrevivência do movimento fundado e liderado pelo então presidente Hugo Chávez, morto em março de 2013, é uma das mais importantes. Um dos maiores temores de Maduro e seus colaboradores é acabar na prisão. O que o chavismo pretende, disse uma das fontes, é um soft landind, ou seja, uma saída suave, preservando espaços de poder como governos estaduais e prefeituras.

— Há muitos modelos na História sobre como terminaram ditaduras, inclusive na América Latina. As coisas não acontecem de um dia para o outro, é um processo. Maduro estaria disposto a negociar esse processo, com garantias — assegurou uma das fontes.

Há dois temas centrais para o chavismo: petróleo e Forças Armadas. Embora, com o passar do tempo, a participação de empresas estrangeiras tenha aumentado no país, na grande maioria dos contratos o Estado venezuelano detém 51% da propriedade dos recursos naturais do país. Essa maioria, questionada por setores da oposição que pretenderiam abrir totalmente o mercado a empresas estrangeiras, não é negociável pelo chavismo. No caso das Forças Armadas, que com Chávez passaram a ser chamadas de Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb), o chavismo exigiria manter um controle e barraria qualquer ingerência dos Estados Unidos no mundo militar.

Por outro lado, a estratégia de pressão máxima dos EUA dificilmente levará a uma negociação. Enquanto mantiver a ideia de derrubar Maduro, não há negociação possível com o chavismo. Todas as tentativas dos EUA, inclusive durante o governo do ex-presidente democrata Joe Biden, de elaborar planos com o objetivo de tirar o ditador venezuelano do poder fracassaram. Uma das razões dos sucessivos fracassos é a coesão dentro do chavismo e das Fanb. Até agora, os americanos não conseguiram provocar uma fissura letal no chavismo.

— A maioria dos venezuelanos quer Maduro fora do poder, porque ele é um governante ruim e ineficiente. Mas as pessoas não querem uma invasão americana — disse uma das fontes.

O passado sindicalista de Maduro, explica a fonte, transformou-o em um negociador nato. Dentro do chavismo há horizontes de médio prazo, inclusive a possibilidade de antecipar eleições ou realizar um referendo sobre sua continuidade no poder. As variáveis que não são negociáveis são “tempo e a participação do chavismo no processo”.

— O chavismo quer continuar sendo a elite política e econômica do país. Quer imunidade, manter seus negócios. Em condições favoráveis, negociaria. Mas, se for obrigado a sair, não — apontou.

Para tirar o chavismo do Palácio de Miraflores, coincidiram as fontes, é preciso oferecer uma saída a Maduro.

— Os custos de saída do poder continuam sendo mais elevados do que os custos de permanência — disse outra fonte, que ressalta haver coesão dentro do chavismo, “porque todos estão ameaçados”.

Armas da Rússia

 

Hoje, o chavismo se sente menos isolado. O assédio militar americano rendeu apoios contundentes de países como China e Rússia, e de governos latino-americanos que no ano passado não reconheceram a reeleição de Maduro, entre eles Colômbia e Brasil. O governo de Gustavo Petro também passou a ser alvo de agressões verbais e sanções de autoridades americanas, e o presidente Lula pediu uma saída “política e diplomática”.

— Essa semana chegaram mais armas da Rússia — destacou uma das fontes.

Do lado da oposição mais dura, a líder María Corina Machado disse ao GLOBO que o ponto de partida para qualquer negociação é o reconhecimento da vitória dos opositores nas eleições de 2024. María Corina não descarta que a negociação possa implicar a concessão de garantias ao chavismo, mas evita dar detalhes do que tem em mente:

— O ponto de partida deve ser a saída imediata de Maduro do poder. Não pode haver período de transição.

Até o momento, as posições são irreconciliáveis. Maduro resiste, não responde aos ataques marítimos no Caribe, e teme ações dos EUA em seu território. Se isso acontecer, as fontes afirmam que “dependendo da magnitude do ataque, haverá uma resposta”.

Fonte: O Globo/Foto: FEDERICO PARRA/AFP

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