As vitórias e derrotas de Gleisi à frente da articulação do governo

Publicado em

A ministra Gleisi Hoffmann assumiu a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência em março de 2025 com o desafio de melhorar a relação do governo com o Congresso Nacional e emplacar pautas de interesse do Executivo de olho na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ao longo dos meses, a gestão da ministra ficou marcada por turbulências e revezes, mas ao mesmo tempo, conseguiu avançar com matérias que serão essenciais para uma eventual campanha de Lula em 2026.

Entre as derrotas amargadas pelo governo está a derrubada histórica de um decreto presidencial que estabelecia o aumento de alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Mais à frente, diante das relações estremecidas com os presidentes da Câmara e do Senado, parlamentares aprovaram o projeto de lei para aliviar as penas dos condenados pela trama golpista e os atos do 8 de Janeiro — o que beneficia o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Por outro lado, a ampliação da isenção do Imposto de Renda – principal promessa de campanha do presidente – enfim saiu do papel. A medida passou a valer neste ano e é uma das apostas para impulsionar a disputa pelo quarto mandato de Lula.

Principais vitórias e derrotas do governo em 2025:

Novela do IOF

A mais ruidosa derrota do governo, talvez tenha sido a rejeição do decreto presidencial que pretendia aumentar as alíquotas do IOF com o objetivo de elevar a arrecadação federal e manter o equilíbrio das contas. Anunciada em maio, a medida atingiria diretamente a classe média e gerou reações negativas de políticos e do mercado financeiro, o que levou o governo a revogar parte do que havia planejado.

O recuo, no entanto, não foi suficiente para apaziguar a situação. Em junho, parlamentares aprovaram um projeto de decreto legislativo (PDL) que sustou os efeitos do decreto do presidente. Foi a primeira vez em 32 anos que deputados e senadores rejeitaram uma medida presidencial do tipo.

O governo decidiu judicializar a questão, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu pela recuperação parcial do decreto presidencial.

O Executivo ainda editou uma medida provisória com propostas para aumentar a arrecadação como alternativa à alta do IOF, mas em uma nova derrota para o governo, o Congresso deixou o texto perder a validade. Após mais um revés, a ministra responsável pela articulação política demitiu aliados de indicados do Centrão que ocupavam cargos em órgãos federais. A medida buscou reorganizar a base, privilegiando parlamentares que votavam com o governo.

Passado o imbróglio, o Congresso aprovou um projeto de lei que retoma pontos da MP que foi derrubada e ajuda a aliviar as contas públicas. Defendida pelo governo, a taxação de bets e fintechs também avançou nas últimas semanas.

Anistia e dosimetria

Ao longo do ano, a gestão de Gleisi teve de lidar com a investida da oposição por medidas para livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão no caso da trama golpista. A pressão pelo projeto de lei da Anistia cresceu diante do julgamento do político pela Primeira Turma do STF. Ele acabou condenado a 27 anos e três meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022.

O desejo de aliados do líder do PL era aprovar uma anistia “ampla, geral e irrestrita” para envolvidos nos atos golpistas. Diante da falta de consenso em torno do tema, no entanto, passou a proposta que prevê a redução de penas, que ficou conhecida como PL da Dosimetria.

De acordo com o relator do projeto na Câmara, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), a pena de Bolsonaro pode ser reduzida para até 2 anos e 4 meses em regime fechado, caso o texto seja mantido.

Apesar da orientação contrária do governo, o substitutivo foi aprovado pela maioria dos deputados, inclusive com apoio de partidos que compõem a base. Na última quarta-feira (17/12), o Senado aprovou a matéria.

O presidente Lula já afirmou que o texto será vetado assim que chegar ao Planalto. “Com todo o respeito que eu tenho ao Congresso Nacional, na hora que chegar à minha mesa, eu vetarei”, disse.

Licenciamento ambiental

O governo também falhou ao tentar impedir o enfraquecimento das regras para o licenciamento ambiental. Em julho, o Congresso concluiu a votação do novo marco que flexibilizou as normas para emissão de licenças.

O texto ampliou o rol de projetos aptos a dispensarem o processo de licenciamento e simplificou o ato para diversas atividades. A medida enfrentou resistência de ambientalistas, que apontaram riscos ao meio ambiente.

Ao sancionar o texto, Lula decidiu vetar 63 dispositivos que considerou prejudiciais à legislação ambiental e à proteção dos povos indígenas. No entanto, no fim de novembro, parlamentares decidiram derrubar a maioria dos itens — 52, no total -, retomando, assim, trechos sensíveis do projeto. O governo avalia judicializar as mudanças.

CPMI do INSS e CPI do Crime Organizado

Ao longo do ano a gestão federal foi pressionada pela abertura de comissões parlamentares de inquérito que ameaçavam desgastar a popularidade do governo no ano que antecede as eleições presidenciais. Uma delas foi a instalação da CPMI para investigar as fraudes em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O escândalo, revelado pelo Metrópoles, figurou entre as maiores crises enfrentadas pela gestão petista e havia o receio de que o colegiado fosse utilizado como plataforma para a oposição. A gestão de Gleisi sofreu um grande revés já no início, quando a oposição conseguiu emplacar parlamentares contrários ao governo na presidência e na relatoria da CPMI.

À época, a própria ministra admitiu que uma falha na articulação levou à derrota. Apesar disso, ao longo dos trabalhos, governistas têm conseguido conter a maioria das investidas da oposição. Exemplo recente foi a rejeição do requerimento de convocação do ministro da Advocacia-Geral da União e indicado ao STF, Jorge Messias. O colegiado também barrou a convocação de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

O governo ainda levou a melhor durante a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a atuação de organizações criminosas no país. A abertura do colegiado ocorreu em meio à crise de segurança pública desencadeada pela operação que deixou mais de 120 mortos no Rio de Janeiro. O senador petista Fabiano Contarato (PT-ES) foi eleito para comandar os trabalhos, numa vitória para o governo Lula.

PL Antifacção

No campo da segurança pública, a administração petista enviou um projeto de lei para ampliar as ferramentas de combate às facções criminosas, que ficou conhecido como PL Antifacção. A iniciativa é do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na Câmara, a relatoria da proposta ficou sob responsabilidade do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), então licenciado do cargo de secretário de Segurança Pública de São Paulo.

O parlamentar propôs uma série de alterações que, na visão do governo, desfiguravam o texto inicial e enfraquece a atuação da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal contra o crime organizado. Já no Senado, em articulação com o relator Alessandro Vieira (MDB-SE), o Executivo conseguiu rever as mudanças que causaram polêmica e retomou os principais pontos do projeto.

Agora, o texto volta à Câmara para análise dos deputados. A pauta é prioritária para o presidente Lula, uma vez que a segurança pública é vista como uma das áreas mais sensíveis da gestão. Além do PL Antifacção, o Planalto defende a aprovação da PEC da Segurança Pública, que segue travada na Câmara.

Imposto de Renda e pauta eleitoral

Às vésperas do ano eleitoral, a administração federal conseguiu aprovar a maior promessa de campanha do presidente Lula em 2022: a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. A medida passa a valer a partir de 2026 e é uma das apostas para a reeleição do petista.

A nova lei também concede descontos para trabalhadores com renda até R$ 7.350 e aumenta a tributação para aqueles que ganham mais de R$ 600 mil por mês, os chamados super-ricos.

Outras medidas consideradas fundamentais para pavimentar o quarto mandato de Lula também passaram pelo parlamento. A medida provisória que ampliou a Tarifa Social de Energia Elétrica para beneficiar famílias de baixa renda foi uma delas, aprovada em setembro deste ano. O chamado Luz do Povo deve beneficiar cerca de 21 milhões de famílias.

Fonte: Metrópoles/Foto: Gil Ferreira/SRI

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe

Assine Grátis!

Popular

Relacionandos
Artigos

Raul Jungmann será sepultado em cerimônia restrita em Brasília

Morto aos 73 anos, o ex-ministro e ex-presidente do...

Valentino Garavani, estilista italiano, morre aos 93 anos

O estilista Valentino Garavani, fundador da grife Valentino, morreu...

Ação da UEA leva atendimento odontológico gratuito à comunidade acadêmica e seus familiares

Atendimentos acontecem na Escola Superior de Tecnologia entre os...

Hospital do DF: técnicos são presos por assassinato em série

Três técnicos de enfermagem foram presos pela Polícia Civil do...